Chorar é viver Parar é morrer
Inês Dias Coelho
Se pudesse, gostava um dia de visitar o jardim que é a cabeça da Inês, sentar-me no vapor de uma nuvem, descalço sobre um mosaico de orquídeas e sentir como crescem serpentesentre os dedos dos meus pés.
A alquimia é um salto, um mergulho no vazio, onde o arlequim brinca aosmagos, tecendo alucinações nos interstícios do drama, obrigando-nos àaparência de fitar o público e esconder o truque de saber quão ténue é afronteira da ilusão que nos separa da criatura que mordisca o sabor amargodo seu próprio coração.
Xiu, façam silêncio e escutem! A Inês dorme, dorme na minha cabeça esonha com labaredas e desertos, nesse labirinto de espelhos que Jano fazgirar no pêndulo do devir e com o qual anima o carrossel da vida. E sopramfaúlhas celestes, fugindo como a espuma que no rebuliço do vento cavalga osbancos de areia do rio Estige. Escutem as Moiras carpindo a sua nascente,enquanto entrelaçam mais um destino no rastilho consagrado ao êxtasesolipsista da deflagração.
A criança que chora de sede morre desidratada, essa é a fonte de todaa sabedoria, e todo o poço é na sua essência um portal, um buraco negro poronde vertem os dias, as horas, os segundos com os quais cosemos amiragem a que chamamos presente e ao qual atiramos todas as nossasesperanças.
Porque um poço sem fundo não atravessa o espaço, atravessa o tempo, é um abismo dentro de um abismo, é a cobra que morde a própria cauda até acauda voltar a ser cabeça que morde a cauda que já foi, e é a esse poçoeterno e vazio a que chamamos desejo, que nos atiramos uma e outra vez àprocura da impossibilidade de nos cumprirmos.
Um dia gostava de visitar o jardim que é a cabeça da Inês, tenho acerteza que, enterrados debaixo de canteiros coloridos, há para lá muitosanimais mortos.
Rodrigo Neto
Bio:
Inês Dias Coelho, 1996, Santo Tirso.
É licenciada em Artes Plásticas – Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
Desenvolve a sua prática artística no Atelier Caldeiras (Porto), exercendo em paralelo a função de coordenadora de serralharia na ArtWorks (Póvoa de Varzim).
O seu imaginário é revelado através da escultura e instalação, articulando diferentes materiais e técnicas numa abordagem crítica marcada pelo humor e por um universo simultaneamente lúdico e provocador.
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